Abril 22, 2012

heraclitante

"Depois do acontecido, aconteça". A frase veio solta, numa conversa despretensiosa de bebes e comes. Com o propósito de indicar que certos efeitos também solicitam novas ações. Parece até coisa de autoajuda. Só que a intenção era outra, de sabedoria. As palavras vinham de quem tinha experiência. E que pelo vivido, sabia sobre aquele significado.

Dias depois, interpretei à minha maneira tudo aquilo. Acontecer sobre o acontecido não é gerar um acontecimento sobre o outro, em escala contínua, como se tudo fosse resposta. Tem a ver, também, com absorver a trivialidade da rotina restabelecida, que não é mais a mesma. Agir sobre ela com a naturalidade do que se supera e se assume como trivial. Algo que, numa apropriação justamente cotidiana, apressada, pode levar à leitura rasa da autocompreensão pela superficialidade do sentido. Inclusive o filosófico.

A fluidez do mundo, diz-se, há muito tempo, é como a de um rio, em cujas águas não é possível mergulhar mais de uma vez. Um fluxo dialético, é verdade.E, por que não lembrar, também cercado de sua própria e necessária banalidade.

Fevereiro 12, 2012

prefixos

Re-ver caminhos é olhar para as pegadas antigas que ficaram. Perceber sobre as muitas pisadas sobrepostas aquele restinho de passadas que insistiram em permanecer. Marcaram o solo figurado que compõe a estrada de trilhas que se sabe pelo olhar da memória. O que re-aparece, entretanto, já não é mais apenas visão de passado. É acúmulo de mudanças que perturbam o que um dia se chamou de essência ou descoberta. Significado de re-viver, para viver de novo pela primeira vez.
Só se desvela o existente, quem sabe, re-fazendo-o. A originalidade do pretérito também está na atualização sensitiva de seus átimos. "Menos simples" do que parece e "mais inédito" do que se imagina.

Dezembro 21, 2011

fim de começo

Dezembro veio e se instalou. Trouxe a urgência do que não pode ficar. Demandas da ordem do ontem que não podem ser mais do amanhã. Finalizações, como diz o jargão do calendário que se completa. Dias acionados e vividos em palavras que convergem para o verbete do terminar. Findar estabelecido e previsto. Materializam-se a correria, o abafamento, a listagem do que resta.

Há muito eu não tinha um dezembro como esse. Intenso. Aliás, arrisco quase a dizer que há muito eu não tinha dezembro. Andava eu com uma temporalidade esquizofrênica, com anos que começavam em março mas que não anunciavam seu fim. Coisas do labor que se foi.

Hoje, no final da tarde, uma linda tarde de sol, olhei para a grande avenida que me guiava para casa e pensei. Pensei em um monte de coisas. Pensei nesse dezembro. Dezembro de 2011. Pensei no ano que se vai e no que ele (me) encaminhou. Pensei na sua diferença. Pensei na minha diferença. Na sua importância, dificuldades, imposições e escolhas. Senti.

Há um ano, não me imaginaria naquele trajeto. Não saberia dizer desse lugar. De suas companhias de perto e de longe. Senti o inesperado e sua lição que precisa de tempo. Percepção semi-tardia. Involuntária. Outra demanda de dezembro. De outra ordem. Que não é do imperativo, mas da decantação.

Dezembro veio e se instalou. Trouxe, então, a evidência do que fica. Também. O reconhecer imprevisto e sensível do que me move. O perceber do sentido que me faz concluir. Sensação datada da igualdade do que permanece, decantado por dentro, e que permite pensar o 2012. Reunião do que, em conjunto, já (me) permite ver o novo que se aproxima. Previsão compartilhada pelo irresoluto que me acompanha e que acompanha qualquer um. Aquele que não precisa ser concluído, que permanece. E que começo, enfim, a avistar.


Novembro 30, 2011

Bob versão Corinne

Is This Love

(Bob Marley)

I wanna love you, I want to love and treat you right;
I wanna love you every day and every night:
We'll be together, with a roof over our heads;
To share the shelter in a single bed;
Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'?
Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'? Wo-o-o-oah!
I wanna know - wanna know - wanna know now!
I wanna know - wanna know - wanna know now!

I-I-I-I-I-I-I-I-I - I'm willing and able,
So I lay my cards on your table!
I wanna love you - I wanna love, love and treat - love and treat you right;

I wanna love you every day and every night:

We'll be together, with a roof over our heads;
We'll share the shelter, of my single bed;
We'll share the same room, yeah! - for Jah provide the bread.

Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'?
Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'? Wo-o-o-oh!
Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'?
Tell me, if its love, love, love that I'm feelin'?
I wanna love you - I wanna love, love and treat - love and treat you right;
Is this love - is this love - is this love -
Is this love that I'm feelin'?
Someone tell me if its love, love ... 

Novembro 23, 2011

saber do amor

Amor é sentimento perene. Corre como o rio, num leito próprio e mutável. Tem seu transcurso cheio de acidentes. E possui uma só nascente.

Às vezes, o fim de uma relação pode trazer a frustração do amor. Sensação de perda e mortalidade. Mas aquele amor que se foi, já era outro. E só o era porque existiu como fluxo. O que o originou permanece. Não apenas pelo Outro, pelo que é do Outro. Mas pelo que existiu a partir do Outro.

Lá no coração, de onde jorra o sentimento, o que habita e vem do fundo é fundante e puro. Ainda não acumulou nem escavou nada. Tampouco foi atritado ou transposto.

Quando há um quando que é fim, é preciso aceitá-lo e olhar para o começo. É o que faz possível a permanência do gostar. Gostar ainda. De uma maneira que não muda. E que não é a mesma. O amor que antecede o amor que existiu é sempre o verdadeiro. É aquele amor que dá a ver a maneira como sabemos, individualmente, gostar. Algo que é pessoal, mas que precisa de um Outro para ser. Por isso sua constância. E diversidade.

Permissão, aceitação e compreensão. Oscilação.

Perder um amor é ganhar a dúvida se saberemos novamente amar alguém. Mas amar não é apenas sentir. É, antes disso, saber sentir. E, assim, sermos amados.